Entrevista – Maria Elizabeth Costa

Qual seu nome?
Maria Elizabeth Costa

Qual a sua idade?
73 anos

Em que ano você estudou na Cerâmica Boa Nova? Qual era sua idade
na época?

Foi em 1972, eu estava com 20 anos. Eu não entrei como aluna, entrei para trabalhar como funcionaria de carteira assinada pela Associação mais ligada à parte de documentos e escritório, mas me envolvi em todo o processo e me tornei aprendiz de cerâmica, ligada à área de pintura e acabamento, pesquisa e também no setor de vendas varejo. Alguns anos depois eu assumi a coordenação das reuniões do trabalho com o “menino de rua”, a pedido da D. Margarida e para esse trabalho éramos um grupo de voluntários e o trabalho se intensificava aos fins de semana. Esse departamento da Associação trabalhava diretamente com os meninos que estavam nas ruas desocupados ou como vendedores de picolés, frutas, engraxates e também os meninos que tinham a rua como lugar preferido: não faziam nada, mas em grupos no centro da cidade eram candidatos a brigas, furtos, a criar maus hábitos em geral e também perturbavam muito porque abordavam as pessoas, geralmente pedindo esmolas nas portas dos comércios.

Você estudava na escola regular também? Como era, me conte um pouco sobre sua rotina naquele momento.

Eu não estava mais frequentando escola. Já havia terminado o ensino fundamental e minhas perspectivas de sair de Ipameri eram remotas por falta mesmo de interesse pessoal. Hoje quando olho para aquele tempo estou bem convicta de que eu estava fazendo a melhor escolha, embora na época eu não tivesse essa preocupação. Eu já havia trabalhado um curto período em uma casa comercial na cidade e com o fechamento dela fui acolhida como funcionária da Associação Adelino de Carvalho.

Você conviveu com a D. Margarida?

Eu convivi muito próxima dela por muitos anos. Aliás, minha vida se passou sempre ligada a ela de alguma forma. Permaneci na “Boa Nova” até que em 1988 e saí a convite para a vida pública e incentivada pela D. Margarida, mas não abandonei as atividades voluntárias, apenas me desliguei do vínculo empregatício. Fui Vereadora, Secretária de Promoção Social e Secretária de Cultura por 3 mandatos. Mas permanece sempre ligada à Associação Adelino de Carvalho e ao Grêmio Espírita Paz e Fraternidade.

Retornei à Boa Nova em tempo integral, onde me encontro atualmente e aos 73 ano,s trabalho tanto na parte educacional quanto na parte de artesanato em cerâmica, fazendo parte da Diretoria.

O que você aprendeu com ela de mais significativo para sua vida?

Foram muitos aprendizados ao longo de mais de 40 anos de convivência. Aprendi com ela o amor ao trabalho: a ocupação, o serviço, por mais singelo ou por mais complexo é uma bênção na vida das pessoas: é fonte de equilíbrio, é fonte de aprendizado, de criatividade, de superação e de autoeducação.

Com D. Margarida eu aprendi a necessidade da disciplina; aprendi vivenciando com aquela liderança amorosa que permite aos demais crescerem e serem maiores até mesmo do que ela própria; aprendi vivendo no dia a dia que o amor e o respeito ao próximo não são apenas uma boa teoria mas uma prática no dia a dia, nos erros e acertos naturais da convivência humana; aprendi que a opinião dos outros a nosso respeito pode ser boa, pode ser má, pode ser a pior, mas o que importa realmente é a nossa consciência em paz perante nós mesmos, perante as pessoas que nos cercam e perante Deus, porque ninguém vai nos absolver ou nos condenar, senão a própria consciência. Aprendi a viver bem, isso é tudo.

Qual é a sua profissão hoje?

Estou aposentada. Hoje componho o grupo diretor do Grêmio Espírita Paz e Fraternidade e da Cerâmica Boa Nova onde eu também trabalho com criação de modelos, formulação de esmaltes e também na área educacional.

O que significou para você ter estudado na Cerâmica Boa Nova?

O aprendizado que realizei na convivência na Cerâmica Boa Nova com todos, sob a direção da Dona Margarida me fez uma cidadã feliz por sentir que fui e continuo sendo criativa, produtiva e por ter deixado o melhor de mim por onde passei e retornar para as atividades diretas desta casa é como receber um grande prêmio de oportunidades pois aqui eu me estruturei e quero colaborar com os que aqui hoje se encontram.

De que forma ter estudado na Cerâmica Boa Nova influenciou no seu modo de vida hoje?

A consciência de estar em um mundo onde devemos realizar nossos propósitos e também criar oportunidades para todos, cada qual com suas possibilidades e com seus limites, procurando uma vida rica de relações com pessoas de todos os níveis culturais, incentivando sempre o lado melhor das pessoas e convivendo com as dificuldades e os obstáculos, porque eles sempre existirão na vida de todos nós. Uma influência enriquecedora que me acompanha.

Você recomendaria aos pais, nos dias de hoje matricularem seus filhos em alguma atividade realizada na Cerâmica Boa Nova Educacional? Por que?

Recomendaria sim. É lamentável que a instituição não tenha como expandir para acolher a demanda existente. A instituição sobrevive às suas próprias custas em 70% das suas despesas gerais, é bastante sustentável, e não é fácil, porque na verdade o produto não é de primeira necessidade e sobreviver de arte e artesanato não é fácil. Não é custeada pelo Poder Público, tem sim algumas parcerias, participa de editais e tem sido contemplada, ajudando muito. Eu gostaria que pudéssemos ampliar acolhendo todos os candidatos, que tem, necessariamente, que ser alunos matriculados em escola pública e poderiam participar das atividades educacionais no contraturno escolar. Seria ótimo se todos pudessem ter esta oportunidade complementar.