Entrevista – Luiz Alberto Costa

Qual o seu nome?
Luiz Alberto Costa

Qual a sua idade?
61 anos

Em que ano você estudou na Cerâmica Boa Nova? Qual era a sua idade na época?
Eu entrei para as oficinas da Boa Nova em 1978. Na época eu estava com 14 anos

Você estudava na escola regular também? Como era? Me conte um pouco sobre a sua
rotina naquele momento.

Sim. Quando entrei para a Boa Nova, eu estava na 8ª série (9º ano, atualmente) e frequentava a escola no período matutino e a Boa Nova, no período vespertino. Quando entrei, fiquei em na loja de varejo que havia acabado de ser montada no centro da
Cidade. Nessa loja eram vendidas as peças de cerâmica e também livros espíritas, além de ser a sede do Departamento de Assistência ao Pequeno Trabalhador, que era um departamento da Associação Adelino de Carvalho, que dava apoio e organizava as atividades de vendedores de picolé, engraxates e outros após de serviços que eram normalmente provocados por crianças e adolescentes, na cidade. Então eu ficava nesse local, auxiliando na limpeza, nas vendas e também atendendo os meninos que sempre passavam por lá.

Nesse mesmo ano de 1978 foi montada, em sala anexa, uma oficina de silk screem, que, à época, era novidade na região. Então aprendi a fazer as artes finais a nanquim sobre o papel vegetal, revelava as telas e também aprendi a imprimir.

Por essa época, as Lojas Americanas, que era o principal cliente, disse à D. Margarida, em uma de suas idas ao Rio de Janeiro, que aquele produto já não tinha mais espaço no mercado. Que ela apresentasse algo mais artesanal, rústico. A Boa Nova produzia, então, a cerâmica comumente chamada de louças, mais tecnicamente de faiança.

Uma das primeiras providências foi a extinção do processo de produção em formas por uma forma mais artesanal, a produção em tornos, que se mantém ainda atualmente. Certa ocasião, D. Margarida, em uma de suas passagens diárias naquela loja do centro, disse que iria me levar para a Cerâmica. E assim foi feito.

Passei então a ir para a Cerâmica Boa Nova e logo de início, ela me colocou com mais dois outros alunos, para um setor de desenvolvimento de novas peças em cerâmica. Ninguém sabia de nada. Era um mundo novo para todos. Não havia nenhum técnico, nem artista. Era tudo na base da tentativa e erro. Olhávamos revistas buscando alguma inspiração em algo que estivesse ao nosso alcance em reproduzir.

Certa vez, D. Margarida trouxe um desenho de um peixe e perguntou ao Litte (Luiz Antônio Alves) Você consegue entalhar esse peixe nesse prato? – Era um prato de cerâmica, meio mole, ainda sem queimar. – Ele disse: Sim! E desenhou o peixe. Era o início de um novo caminho. Daí surgiu as duas linhas mais artesanais, que foram batizadas de Colonial e primavera. Essa linha ficou em mercado por mais de 10 anos e nós, do setor de desenvolvimento, continuamos em nossa atividade de buscar novidades.

A partir de então, convivendo diariamente com D. Margarida e com a equipe de administração da Boa Nova, fui me integrando, mesmo ainda como adolescente, nas atividades, participando de conversas, planejamentos e decisões.

Sempre me impressionou como a D. Margarida nos tratava: dava atenção a todos nós que, mesmo como adolescentes, podíamos somar com ideias e contribuir de alguma forma e participar de reuniões e decisões da diretoria.

Em 1982, completei 18 anos. Fui dispensado do Serviço Militar e me integrei como funcionário celetista da Boa Nova.

Já estava em funções outras, na área administrativa, mas sempre ainda com um “pé” no setor de criação, onde ainda tenho atuação.

Em 1992 passei em processo seletivo da Prefeitura Municipal de Ipameri e, sendo aprovado, consegui minha disponibilidade na Instituição. A partir de então, fui assumindo participação maior ao lado de D. Margarida e da equipe de administração, participando de cargos de diretoria.

Acometida por processo de enfermidade, gradualmente, fui assumindo as funções principais na administração, até assumir a presidência da Associação Adelino de Carvalho, em 2008.

Você conviveu com a D. Margarida?

Sim. Muito. Tive o prazer e a honra de conviver próximo à D. Margarida, de participar de suas preocupações em sempre encontrar a melhor forma de fazer o bem, de ampliar o atendimento às crianças e às famílias.

D. Margarida era uma mulher muito bonita, tanto plasticamente, mesmo em sua maturidade, mas principalmente linda em sua beleza espiritual, em que irradiava uma simpatia cativante. Nos tratava a todos com a frase carinhosa: “Meus amores…” e trazia-nos sempre seu sorriso e seus abraços.

Era muito dinâmica e seu entusiasmo era contagiante. Estava sempre com ideias novas. Tomava frente em tudo e nos liderava pela força do exemplo. Era mesmo difícil acompanhá-la; a cada dia aparecia com ideias novas de como melhorar as atividades educacionais da Boa Nova.

Qual a sua lembrança da D. Margarida?

Era espantoso ver o grau de dedicação que ela tinha, nas causas que abraçava. Não tinha nenhum tipo de preconceito nem recuava diante de um quadro de uma enfermidade contagiosa ou ferimentos graves. Presenciei vários casos de pessoas que a procuravam, como andarilhos e enfermos. Nunca vi ninguém se afastar dela sem ter sua situação imediata minimizada, seja com suprimentos materiais ou mesmo com uma palavra de bom ânimo.

Era muito dinâmica, ativa e positiva. Era uma líder no melhor sentido da palavra. Tornou-se pessoa a quem todos buscavam por orientações, pois sempre tinha aquela palavra sensata, equilibrada e de estímulo.

Também sempre me impressionou muito o quanto ela estudava, principalmente as mensagens de o “Evangelho segundo o Espiritismo”, buscando acertar na forma de melhor ajudar, mas não simplesmente para ficar livre do problema, mas ver como podia ser solucionado. Seu livro era todo marcado e cheio de notas.

Qual a sua profissão hoje?

Sou funcionário Público Municipal a disposição da Associação Adelino de Carvalho, onde ocupo o cargo de Tesoureiro.

O que significou para você ter estudado na Cerâmica Boa Nova? Qual foi a sua experiencia?

Foi muito importante para a formação de meu caráter, de minha personalidade. Tornei-me funcionário público municipal e, por decisão pessoal, pedi minha disponibilidade a serviço da instituição, por saber que poderia dar minha contribuição na continuidade da Instituição, como realmente vem acontecendo.

De que forma ter estudado na Cerâmica Boa Nova, influenciou no seu modo de vida hoje?

Teve grande influência, pela convivência com um grupo de pessoas que se uniram em torno de um ideal. Percebi a verdade que existia nas pessoas envolvidas, sem subterfúgios, sem segundas intenções e, acima de tudo, sem interesse pessoal. Talvez, poucos tenham a oportunidade de conviver com pessoas de padrão moral acima do comum que vemos no dia a dia, isso seguramente me influenciou positivamente.

Você recomendaria aos pais, nos dias de hoje, matricularem seus filhos em alguma atividade realizada na Cerâmica Educacional Boa Nova? Por que?

Minha resposta pode ser considerada suspeita, por hoje fazer parte da direção da Instituição, mas, com certeza, sim. Os filhos de famílias ricas, são matriculados em escolinhas de futebol, balé, judô, natação, etc… aprendem habilidades extras que a escola regular não oferece. Isso é importante, porém inacessível às famílias de baixa renda. A instituição oferece um conjunto de atividades, com um adicional de medidas educativas. Assim, as oficinas da Boa Nova, além de oferecer atividades que descortinem aptidões e talentos, através da tecnologia, esporte, artes e cerâmica, também trabalha o respeito, a organização, a cidadania… abordando temas e situações que, normalmente, as famílias não teriam condições de o fazer. Sim, o que fez muito bem para mim, também desejo para os demais.